
A cada dia que passa nos deparamos com mais conteúdos genéricos em redes sociais e outros canais digitais.
O mercado fitness é um prato cheio para quem deseja lucrar, mesmo que não haja escrúpulos no meio desse oceano de publicações vazias que engajam como nunca, sem legislação para conter os mal intencionados.
Quem mais tem prejuízo com essa onda de publicações genéricas (e nem sempre com comprovação científica) é a população.
Por tabela, os negócios que vivem da prestação de serviços de prescrição de exercícios (Academias, estúdios, entre outros) também são financeiramente punidos.
Os negócios são prejudicados por diversos motivos, como:
- Clientes educados por influenciadores mal intencionados;
- Ambiente da musculação visto apenas como instalação a ser “alugada” para usar equipamentos;
- Desrespeito aos profissionais que desejam trabalhar sério, mas não têm a mesma autoridade (alcance) dos influenciadores;
- Investimentos cada vez maior em tráfego pago para cobrir a evasão e a rotatividade de clientes no negócio.
Clientes educados por influenciadores mal intencionados
Uma das coisas que precisamos entender o quanto antes é o fato dos influenciadores terem nascidos desde a origem do homem.
Pais, mães, familiares, ídolos, atletas, líderes religiosos, todos exerceram e ainda exercem influência diária entre seus pares há séculos, mesmo antes da existência de redes sociais e demais canais digitais. Sendo assim, nada de condenar o exercício da influência, ok?
O problema não é a influência, mas como ela está sendo realizada.
O que devemos nos preocupar de imediato em termos de influência digital:
- A influência vem da pessoa, o “digital” é apenas o veículo;
- A maioria dos influenciadores não posta o que realmente faz, mas o que gera engajamento, mesmo que não seja cientificamente comprovado (Nenhuma marca séria desmente, apenas alguns profissionais fazem algum tipo de retaliação);
- A maior parte dos atletas de fisiculturismo (maiores influenciadores do mercado) não liga tanto para suplementos, pois a comida de verdade é a base, mas alimentam a indústria dos suplementos com suas influências por serem patrocinados ou por venderem bastante através dos seus cupons em sites;
- A população deseja cada vez mais atalhos com intuito de economizar tempo, ou seja, se o influenciador der dicas de como conseguir resultados mais rápidos, terá mais poder de persuasão do que seu professor que estudou e que propõe algo mais demorado, porém mais seguro e eficaz;
- A maior prova do desejo de economia de tempo é: Tem gestor (colega seu) seu que não chegou até aqui no artigo por preguiça e não vai aprender o que você aprenderá até o final. E mais, ele continuará reclamando do mercado;
Calma, tem mais…
- Por mais que nossa profissão seja intelectual, o culto ao “personal tem que ter shape” cria uma âncora pesada demais na profissão, tornando-a mais “prática” do que “intelectual”. A prova é a quantidade de postagens com comentários do tipo: “Se ele tem shape, ele está certo”;
- Sim, o que está escrito acima influenciará suas contratações, dependendo do tipo de público que deseja para seu negócio. E mais, pode ficar cada vez mais difícil atrair bons profissionais. Teremos que nos contentar com os que “parecem bons”, pois os bons de verdade estão aproveitando outras oportunidades;
- Não há fiscalização e nem limites para o que é fake e para comunicações com boas intenções;
- O mais importante: Marcas se conectam menos com o público do que influenciadores (normal), logo, o desafio da criação de conteúdo de marca é bem maior, embora extremamente necessário para virar o jogo da influência.
O ambiente da musculação como instalação a ser alugada
Quantas pessoas você conhece que têm condições de ter um espaço de ao menos 70 metros quadrados, com 60 mil Reais em equipamentos básicos, de marcas medianas, para treinar musculação em casa? Isso mesmo, uma pequeníssima parcela da população.
A sala de musculação, hoje em dia, é tratada como um ambiente completamente diferente das demais modalidades, como lutas, natação, entre outras.
ALERTA IMPORTANTE: A relação professor-aluno na musculação está cada vez mais prejudicada, começando pelo CONFEF orientando uniformes com a descrição “Profissional de Educação Física”, já que não atuamos na formação curricular do indivíduo.
Essa mesma exigência não é colocada em prática nas academias de lutas. Mesmo sem exigência de formação em educação física, mesmo sem contribuição formal na formação curricular, os mestres são chamados de “Professores”. Sim, eles são professores, assim como os professores de musculação.
Pode não parecer, mas a forma que o profissional é chamado, assim como os poderes dados a eles para manter a ordem e segurança do local influencia muito como a população percebe nossa atuação. Todos sabem que é importante se exercitar, mas nem todos acreditam ser importante fazer isso dentro de uma academia com supervisão de um profissional qualificado.
Sendo assim:
- Professores de musculação são vistos muitas vezes como “inspetores de sala”, impedindo os frequentadores apenas de fazerem o que pode colocar a segurança dos demais em risco;
- “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons” (Martin Luther King): O dia que todas as academias (ou maioria delas), assim como profissionais, criarem conteúdos científicos aplicáveis com maior frequência do que os influenciadores mal intencionados, o jogo vira;
- Pode não parecer, mas conteúdo de marca bem planejado, que soluciona problemas e traz resultados para a vida, pode gerar mais lucro ao longo do tempo do que suas campanhas de tráfego pago (não se chateie com isso, apenas planeje a mudança).
O que podemos fazer para resgatar a relação professor-aluno nas salas de musculação?
- Ter regras de conduta com base nos 3 pilares: 1) Utilização correta dos equipamentos | 2) Segurança em sala | 3) Comportamento em sala: Isso tudo reforçado periodicamente nos canais digitais, através de um bom plano de conteúdo educacional de marca, ajuda na mudança de cultura que envolve a marca;
- Metodologia que força o cliente a seguir orientações dos profissionais que você contratou e treinou: Do contrário, o cliente será apenas um inquilino que aluga seu espaço para aproveitar sei investimento. Assim que abrir alguma academia ao lado com estrutura melhor, ele vai embora;
- Criar conteúdos de marca que educam sobre a importância de escutar o profissional dentro da sua academia. Demora, mas em um ano a cultura da sua sala pode mudar da água pro vinho, se conteúdo andar junto da metodologia, dos processos e do treinamento constante dos profissionais (parece repetitivo, é de propósito).
Desrespeito aos profissionais
Academia que apenas aluga espaço abre portas para o desrespeito.
Muitos frequentadores que acreditam não precisar de orientação, pois conseguiram resultados satisfatórios, não respeitam a atuação dos profissionais.
A atuação profissional envolve:
- Prescrição e orientação de exercícios (o inquilino não quer);
- Correção de execução (inquilino não liga, pois ele tem mais shape que o professor);
- Segurança de todos em sala (nem sempre o inquilino gosta de ser alertado sobre suas ações que colocam os demais em risco).
Pode não parecer aos olhos dos clientes, mas tudo que acontece na sala é de responsabilidade do professor (chamarei sempre de professor, pois não adoto moralmente o que o CONFEF orienta, mesmo reforçando a importância da atuação do Conselho Federal). Nesse caso, é comum praticantes se sentirem bem incomodados com a intervenção em nome da segurança dos demais em sala.
Quando chega nesse nível, prova que a gestão deveria intervir imediatamente na mudança de cultura dentro da sala de musculação (ou até mesmo da empresa).
CASO REAL:
Há pouco tempo vi no Instagram, em um corte de podcast, um empresário renomado relatando uma situação que protagonizou durante seu treino em uma academia.
Ao executar um exercício, um professor se aproximou e tentou dar uma dica de eficiência em relação ao movimento. No meio da aparente discussão, ao discordar, o empresário deu um verdadeiro esculacho no professor.
Na falta de argumento, ele disse que não ia fazer ou escutar a orientação, pois ele tinha 110kg e braço maior do que o tronco ou a cabeça do profissional (se o professor não entendesse tanto de treinamento, mas tivesse 120kg com pouca gordura no corpo, talvez fosse escutado, certo?)
Isso prova que:
- A profissão é mais prática do que intelectual (percepção de boa parte do público);
- O cliente em questão não respeita a responsabilidade do profissional em orientar e manter a segurança de todos (paga a academia apenas para usar equipamentos da forma que bem entende);
- O cliente, por ser um grande influenciador empresarial, propaga essa cultura para outras pessoas que desejam resultados a qualquer custo.
Detalhe: Esse empresário que não tem respeito pelo professor de musculação (por ser fisicamente menor que ele) será um dos palestrantes principais (Keynote) de um dos maiores eventos de gestão fitness da América Latina, aqui no Brasil.
Investimento cada vez maior em tráfego pago
A alta rotatividade de clientes e profissionais força as academias a investirem cada vez mais em tráfego pago, seja para atrair clientes ou para processos seletivos.
Por não saberem como realmente funciona a operação de uma academia, agências sempre aconselharão investir naquilo que elas entendem, ou seja, campanhas de tráfego pago acompanhadas de conteúdos genéricos (já que não há curadoria e nem conhecimento técnico para comandar com propriedade uma Inteligência Artificial).
Sempre insisto na máxima de que “custa 5 vezes mais atrair um novo cliente do que manter os que já temos”. Frase antiga que jamais será usada por quem trabalha com tráfego pago, a não ser para manter os clientes das agências (como as agências que ensinam outras agências a fazerem o que elas fazem para lucrar mais).
Se você investe 3 mil Reais por mês em tráfego pago, mas não investe igual ou mais em processos e treinamentos para manter o cliente que você já tem, sinto em dizer que seu barco vai afundar a qualquer momento.
Uma promessa bem feita, com processos bem estruturados, equipe bem treinada e um bom plano de marketing de conteúdo para reforçar toda essa mudança de cultura torna sua empresa mais lucrativa.
Tráfego pago atrai mais clientes? Sim, mas não garante fidelidade.
Se você consegue manter seus clientes, cada vez menos será necessário atrair novos. Os que são mantidos “dançam conforme a música” da marca. Se você tem mais gente dançando conforme a música da marca, não precisa atrair mais.
Lembre-se: Uma promessa bem feita, com processos bem estruturados, equipe bem treinada e um bom plano de marketing de conteúdo para reforçar toda essa mudança de cultura torna sua empresa mais lucrativa.
Como esse artigo é sobre conteúdo para academias, pergunto:
- O conteúdo publicado pela sua academia reforça a essencialidade das pessoas se exercitarem dentro de um espaço como o seu e não em casa com auxilio de personal online?
- O conteúdo da sua academia ensina clientes a respeitarem os limites do espaço?
- O conteúdo da sua marca ajuda a criar uma nova cultura de “consumo consciente da modalidade musculação”?
- O conteúdo da sua academia mostra que não é tão inteligente ouvir influenciadores mal intencionados, podendo obter resultados mais satisfatórios e duradouros ouvindo o que os profissionais da sua academia têm a dizer?