Professor Fábio Cantizano, especialista em marketing para o mercado fitness.
Fabio Cantizano CREF: 16603-G/RJ – Profissional de Ed. Física.

As academias foram reconhecidas como espaços da saúde. Este reconhecimento pelo Ministério da Saúde, na época mais severa da pandemia, ajudou as academias a darem um verdadeiro salto mercadológico. Mas em que direção?

Nos tornamos peritos em falar sobre saúde, tratamento de doenças através do exercício e como nossos estabelecimentos poderiam auxiliar na manutenção da vida. Pouquíssimo tempo depois, retornamos ao discurso da barriga trincada e glúteos poderosos.

Isso prova nossa capacidade de adaptação em curto prazo, mas não em longo prazo para gerar percepção de “essencialidade” nas mentes das pessoas que mais precisam de nós.

Não há dúvidas que o exercício físico é a ferramenta com melhor relação custo-benefício para melhorar a saúde, qualidade de vida, produtividade e bem-estar. Exercício físico é vida, mas a população está convicta disso?

Quem as academias atendem?

Há uma boa diferença de comportamento de consumo entre países, principalmente entre aqueles que lideram o mercado em número de academias e negócios afins. Se há grande diferença de consumo entre esses países, copiar estratégias do país número um não parece produtivo, já que este mesmo país é um dos mais “obesos” do mundo (se não for o número um também nesse quesito).

Para alguns consumidores, o lazer e o bem-estar mental é o principal objetivo. Outros buscam prevenção e combate às doenças não transmissíveis (mas a maioria desses ainda se sentem excluídos das academias). Grande parte busca estética, sendo que muitos se atentarem aos riscos dos recursos que aceleram o processo.

Estamos aqui para falar de saúde de verdade, não apenas de atividades que fazem bem para a saúde. Pode parecer que não, mas há grande diferença.

Uma pergunta necessária: Sua sala de musculação atende quem realmente precisa de saúde e funcionalidade no dia a dia?

Falo aqui das Pessoas com Deficiência (PcDs) com foco em perda de mobilidade, como os cadeirantes, ok?.

O dia a dia do cadeirante

O cadeirante enfrenta diariamente uma série de desafios para cumprir sua rotina, seja ela laboral ou não, justamente pela falta de adaptação arquitetônica, compreensão da sociedade em que vivemos, dificuldade de transporte, entre outros.

Já presenciei cadeirante tendo que passar pela rua (isso mesmo, asfalto) por ter um carro oficial de segurança pública estacionado na calçada, que também estava toda esburacada e sem a menor condição do cadeirante tirar proveito.

Coisas básicas do dia a dia, extremamente simples para quem não é PcD, são desafios constantes para cadeirantes. Além da falta de mobilidade, o estresse mental prejudica ainda mais a saúde dessa população extremamente ativa economicamente, mas aparentemente desvalorizada.

Sala de musculação é saúde?

Sala de musculação, ao meu ver, só pode ser considerado um espaço de intervenção para saúde quando atende pessoas que realmente precisam melhorar a saúde, não apenas manter ou “colocar o shape”.

Posso estar parecendo radical, mas quem tem familiar PcD e acompanha seus desafios, sabe bem o que é vivenciar a incompreensão e falta de ações de inclusão real.

Capacidades físicas que o PcD (especificamente o cadeirante) precisa para um dia a dia menos difícil:

A principal delas é a força muscular em suas diversas formas de manifestação.

Embora haja a necessidade de um trabalho em conjunto para desenvolvimento da capacidade aeróbia e da força muscular, justamente para tentar blindar a saúde do PcD cadeirante, este precisa focar na força muscular para enfrentar desafios maiores do que a própria deficiência, que é a falta de adaptação arquitetônica e compreensão dos demais membros da sociedade.

Imagine o desafio: Desenvolver a força muscular de membros que são utilizados de forma intensa diariamente, e ainda evitar lesões que incapacitem ainda mais o PcD de se locomover. Percebe agora a importância que temos nas vidas dessas pessoas?

Quando a saúde não compreende a necessidade

Há leis que obrigam adaptações arquitetônicas em espaços públicos e privados, mas não focarei nisso aqui, focarei na compreensão humana.

A maioria dos prédios comerciais que abrigam consultórios médicos não são adaptados para receber cadeirantes (estou falando dos consultórios, ok?). Na portaria tem rampa de acesso, mas isso é o mínimo.

Boa parte dos médicos, dentistas e demais profissionais da saúde que atendem em consultórios não se atentam aos seguintes detalhes:

  • O cadeirante precisa entrar na recepção;
  • O cadeirante precisa entrar no consultório;
  • O cadeirante precisa fazer suas necessidades fisiológicas.

Não digo que não haja pela cidade um consultórios que consigam receber PcDs com mobilidade reduzida, mas vi poucos consultórios em prédios comerciais com portas que suportem facilmente a passagem da cadeira de rodas, não digo da entrada da clínica, mas do consultório. Os que vi fora adaptados pelo profissional, não pelo condomínio.

Vi apenas um que o cadeirante conseguia entrar no banheiro e fazer xixi com segurança, tendo barras de apoio, espaço para trânsito da cadeira, tábua do vaso adaptada para a devida higiene e recurso que permitia um pedido de ajuda, em caso de adversidades.

Sua academia consegue receber cadeirantes na sala de musculação?

Muitos espaços têm rampas de acesso na recepção e demais instalações no primeiro andar.

Já vi uma determinada academia fazer propaganda de espaço inclusivo e acessível, mas que o cadeirante conseguia apenas praticar hidroginástica, pois era no primeiro andar, entrando na piscina com ajuda do professor e do estagiário.

Quando o estagiário faltava, demorava para conseguir alguém para ajudar, gerando olhares e percepções de indignação nos demais alunos que sinalizavam o atraso no início da aula. Inclusão não é apenas adaptação arquitetônica.

O que é necessário para uma sala de musculação receber cadeirantes?

Antes de sair mexendo no espaço, consulte um profissional capacitado para a tarefa, seja um engenheiro ou arquiteto que, além da formação técnica exigida em sua profissão, tenha conhecimento aprofundado das normas técnicas e legislação sobre adaptação de espaço para espaços acessíveis aos cadeirantes. Esse primeiro passo evita retrabalho e vai fazer você economizar bastante.

O cadeirante precisa de:

  • Espaço e recursos para chegar ao salão de musculação sozinho, sem ajuda. Isso é dignidade pra ele;
  • Academia com procedimentos operacionais para atender essa demanda, contemplando trânsito em sala, capacidade técnica dos profissionais e educação dos demais clientes sobre inclusão;
  • Trajeto livre até um banheiro, seja uma cabine adaptada em outro banheiro ou até mesmo um reservado para PcDs, como em alguns centros comerciais (que esteja aberto e pronto para uso, ok? Nada de trancar e fazer ele pedir para alguém solicitar a chave na recepção). Ninguém tem que saber a hora que ele precisa ir ao banheiro;
  • Conteúdos educacionais sobre saúde de todos, inclusive PcDs, atraindo-os para seu espaço e educando os demais sobre inclusão e compreensão de quem precisa da musculação para viver em sociedade.

Sua sala de musculação tem condição de receber cadeirantes, dando dignidade, promovendo saúde e qualidade de vida para esta importante parcela da sociedade? Em breve falaremos sobre os demais PcDs que também precisam de saúde, ok?

Aceite meu convite e clique na imagem abaixo: